segunda-feira, 16 de maio de 2011

II - HOMOSSEXUALIDADE E A BÍBLIA - Sodoma e Gomorr

SODOMA E GOMORRA

Gênesis 19
Pergunte a qualquer pessoa onde podemos encontrar na Bíblia a condenação da homossexualidade, e sem dúvida a primeira resposta será a história de Sodoma e Gomorra.
No começo da história, lemos que o sobrinho de Abraão, Ló, que mora em Sodoma encontrava-se sentado nos portões da cidade quando chegaram dois anjos, disfarçados de homens. Ló os saudou, convidando-os a passarem a noite na sua casa. Não havia hotéis, nem sequer uma pequena pousada naquela época, portanto os viajantes tinham que depender da gentileza e boa-vontade dos residentes para acomodação. "Obrigado," disseram eles, mas, vamos pernoitar na praça, muito obrigado. Não me parece uma boa idéia, pensou Ló, e insistiu tanto com os estrangeiros que estes não puderam negar e concordaram em ir pousar na casa de Ló. Como um homem generoso Ló, ofereceu comida e eles, após cearem preparavam-se para deitar.
Aparentemente a notícia da chegada dos homens espalhou-se pela cidade como rastilho de pólvora, pois logo todos os homens da cidade se encontravam na porta de Ló, clamando pela presença dos homens. No versículo 5 lemos: “...Traze-os fora a nós, para que os conheçamos” (yadtha, ou yadha). Em algumas outras traduções lemos “ Traze-os para fora a fim de que possamos ter relações sexuais com eles” (yadtha, ou yadha).
Ló sai de casa para tentar acalmar as pessoas da cidade. “Meus irmãos, rogo-vos que não procedais tão perversamente; eis aqui, tenho duas filhas que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado. Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Esse indivíduo, como estrangeiro veio aqui habitar, e quer se arvorar em juiz! Agora te faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, isto é, sobre Ló, e aproximavam-se para arrombar a porta. Aqueles homens (os anjos), porém, estendendo as mãos, fizeram Ló entrar na casa, e fecharam a porta; e feriram de cegueira os que estavam do lado de fora, tanto pequenos como grandes, de maneira que cansaram de procurar a porta”.
Com o amanhecer os estrangeiros conduziram Ló, sua esposa, e suas duas filhas para fora da cidade. Então disseram os homens a Ló: “Tens mais alguém aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens na cidade, tira-os para fora deste lugar. Corram, não parem e não olhem para trás!" E Deus mandou uma chuva de enxofre e fogo desde os céus, sobre as cidades de Sodoma e Gomorra e as destruiu.
Essa é a história resumida da destruição de Sodoma e Gomorra. Seria uma história sobre a homossexualidade? Será que Deus condenou os sodomitas por serem homossexuais? Teria Deus decidido destruir as cidades de Sodoma e Gomorra e todos os seus habitantes por causa deste único incidente de comportamento inapropriado? Antes de começarmos a examinar essa história, cremos que é importante ressaltar que apesar do que está escrito na primeira frase acima, a grande maioria das instituições religiosas não considera mais a história relatada, como tendo alguma relação com a homossexualidade em si, exceto talvez alguns mais radicais ou fundamentalistas. Existem demasiadas evidências que provam o contrário, de fontes variadas. Vamos examiná-las.
Ló era relativamente um recém chegado em Sodoma. Gênesis 13 nos diz que Abraão e seu sobrinho Ló tinham residido juntos por um breve tempo, mas seus respectivos séquitos tornaram-se tão grandes que a terra na qual eles estiveram a viajar já não conseguia mais sustentá-los, então eles decidiram seguir caminhos separados. Ló e sua família decidiram viajar em direção a Sodoma. Aparentemente eles não estiveram vivendo na cidade desde há muito tempo antes da chegada dos estrangeiros (anjos).
Parece ser da natureza das pessoas o fato de serem suspeitosas a respeito de recém-chegados. Isto era verdade principalmente em relação àqueles dias quando as cidades eram muitas vezes invadidas por bandos nômades de vândalos saqueadores. Ló pode ter estado lá o tempo suficiente para ter vencido a desconfiança e ser aceito, porém quando ele convidou mais dois estrangeiros para a sua casa, essa ação chamou imediatamente a atenção da comunidade.
É possível que, temendo uma ameaça à cidade, os homens decidiram reunir-se em tumulto na porta de Ló, a fim de descobrirem, conhecerem, (yadtha) quem eram tais homens e quais eram as suas intenções? Será que os sodomitas suspeitaram que aqueles homens pudessem na verdade ser parte de uma missão de reconhecimento enviada para infiltrar-se na cidade, a fim de descobrirem suas vulnerabilidades e relatá-las para um eventual exército aguardando do lado de fora para sitiá-la? Pode ser que ao reunirem-se de forma tumultuada na porta de Ló, os homens estivessem gritando: “Quem são esses homens? Traga-os para fora a fim de que possamos descobrir o que exatamente eles pretendem?”
Será que Deus decidiu destruir as cidades por causa do que os sodomitas disseram e fizeram como nos relata o capítulo 19? Não! Se verificarmos no versículo 13 do capítulo 13 podemos perceber que os habitantes de Sodoma eram maus e perniciosos, e grandes pecadores contra Deus.
Deus manifesta sua intenção no capítulo 18. Nessa passagem lemos que três homens abordam Abraão, enquanto ele descansava em frente à sua tenda. As Escrituras identificam esses três homens como sendo o Senhor e mais dois anjos (ou ainda Deus em forma de Três: a Trindade?); apesar de que Abraão os reconhece como três homens. Ele então lhes demonstra sua hospitalidade e após terem ceado dizem a Abraão que Sara, sua esposa teria um filho no próximo ano. Sara que estava às escondidas ouvindo a conversa começou a rir consigo mesma, diante do absurdo que seria o fato dela engravidar sendo já idosa como era. Quando o Senhor indaga Sara por que esta se ria, ela nega que tivesse rido, mas o Senhor não aceita sua negativa e afirma que ela de fato havia rido. Agora Abraão finalmente entende com quem ele está falando.
Então Deus diz a Abraão que por causa da maldade, Sodoma e Gomorra estavam em risco de serem destruídas. Deus enviou os dois anjos para determinarem a extensão desta maldade. Na mesma hora Abraão lembrou-se de Ló e sua família, começando a barganhar com Deus, visando salvá-los. "Destruirás também o justo com o ímpio?" Abraão pergunta. "Se porventura houver cinqüenta justos na cidade?". "Não". "E se tiverem quarenta justos, ainda assim destruirias a cidade?". "Não". "Trinta?". "Não". "Vinte?". "Não". "Dez?". "Não". Deus não destruiria a cidade se fosse possível encontrar dez pessoas retas de coração. Entretanto como nos diz o versículo 4, do capítulo 19, todos os homens da cidade estavam batendo à porta de Ló, selando o destino da cidade. Mas qual era o pecado deles? Era a homossexualidade? Ou era outra coisa?
Precisamos analisar esta palavra yadtha, a qual é traduzida como conhecer em algumas versões e fazer sexo com, em algumas outras traduções. Existem muitas palavras em do hebraico que são traduzidas como conhecer. Nas Escrituras a palavra ‘yadtha’ significa ter completo e extensivo conhecimento de algo ou de alguém, e inclui também ter conhecimento sexual. Mas, das 943 vezes em que essa palavra é usada nas Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), somente dez vezes ela refere-se a relações sexuais. Isto quer dizer que existem 933 vezes em que a palavra é usada para referir-se a outras coisas que não signifiquem relações sexuais.
O que mais desejavam os homens que cercaram a casa de Ló, que não fosse saber as intenções dos estrangeiros? É fácil perceber que, se eles estivessem achando que os estrangeiros fossem na verdade espiões infiltrados, eles quisessem dominá-los, subjugá-los (e aqui entra um pouco de nossa experiência pessoal, nos anos em que estivemos trabalhando no Continente Africano. Tivemos a oportunidade de presenciar uma situação semelhante, quando uma multidão de pessoas simplesmente trucidou completamente dois homens, porque foram acusados de estarem passando por rádio informações à guerrilha, na cidade de Malange, que estava sendo bombardeada. Foi absolutamente impossível para as autoridades constituídas conseguirem controlar a população, apesar de que nunca se produziu prova de que os homens estivessem realmente passando informações estratégicas) . Como então eles os dominariam e subjugariam? Uma prática comum no Oriente Médio, naquela época, em caso de alguém ser derrotado e feito prisioneiro em uma batalha, era o intercurso sexual anal forçado. Como uma maneira de humilhar seus prisioneiros os vencedores os violentavam.
Está claro que Ló imaginou que os homens da cidade estavam inclinados à violência sexual, uma vez que ele decidiu oferecer suas duas filhas virgens no lugar dos homens. Apesar de que poderíamos achar a oferta de Ló algo repugnante nos dias atuais, nos tempos de Ló, a importância da Lei da Hospitalidade e proteção de hóspedes superava a importância do amor e da proteção à família. Na verdade, podemos concluir sem receio de enganos que o comportamento condenável dos sodomitas foi o desrespeito ao seu próprio Código de Hospitalidade em relação aos estrangeiros.
A Bíblia Anotada New Oxford afirma: a questão principal aqui é a hospitalidade aos visitantes divinos. Nesta passagem a sacralidade da hospitalidade é ameaçada pelos homens da cidade que queriam violentar (conhecer) os hóspedes. Apesar da implícita (e óbvia) desaprovação ao abuso homossexual nesta passagem, o ponto principal desta passagem parece ser a ameaça que os habitantes representam ao valor da hospitalidade. A hospitalidade é tão valorizada neste contexto, a ponto de neutralizar a negatividade da atitude de Ló ao oferecer suas filhas em lugar de seus hóspedes, o que hoje seria uma atitude impensável e repugnante à qualquer leitor.”
Será que o código da hospitalidade era tão sério assim naquela época? Quando começamos a pensar que viajantes que não tinham opção de acomodação, tinham que ficar sozinhos durante a noite, em vielas e becos, ou ainda nas praças da cidade, ficando assim vulneráveis a ataques de ladrões e salteadores; entendemos que uma amigável porta aberta poderia significar a diferença entre vida e morte, então rapidamente percebemos a importância da boa-vontade de ser hospitaleiro.
Será que a quebra do código da hospitalidade foi realmente a principal razão para a condenação de Sodoma? Jesus achava que sim. Como nos mostra Mateus 10 também em Lucas 10, Jesus envia seus discípulos e dá a eles autoridade para curar os enfermos, expulsar demônios e proclamar as boas novas da salvação. Ele os ensina que quando chegassem a uma cidade procurassem quem fosse digno e pousasse na casa dessa pessoa. " E, se ninguém vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saindo daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para a terra de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.
Aqui, percebemos que Cristo faz uma comparação entre a punição reservada à cidade que não possui o dom da hospitalidade em relação aos seus discípulos, e àquela reservada à Sodoma e Gomorra.
Existem outras evidências bíblicas que indicam que, o que os homens da cidade realmente tencionavam eram mesmo a prática da violência sexual e do estupro? No livro de Juízes, capítulo 19, encontramos uma história semelhante a de Sodoma e Gomorra. Um homem viajando com sua concubina chega até a cidade de Gibeá, e no versículo 15 encontramo-lo sentado na praça da cidade. Ao anoitecer vinha um velho do seu trabalho no campo, os encontra e os convida para pousarem em sua casa. No começo do versículo 22 lemos: Enquanto eles alegravam o seu coração, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, bateram à porta, e disseram ao ancião, dono da casa: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos (yadtha’). Encontramos em algumas traduções: “Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que tenhamos sexo com ele. (yadtha’)”.
Como na história de Sodoma e Gomorra, o velho oferece sua filha virgem à população, e o homem oferece a sua concubina, mas os homens da cidade não estão interessados. Mas ainda assim eles põem-na do lado de fora, e ela foi estuprada e abusada toda a noite. Quando o dia amanhece ela é liberada, e acaba por falecer à porta de casa.
A despeito do fato de a linguagem usada pela multidão nesta passagem ser a mesma usada na passagem de Sodoma e Gomorra, ainda não tivemos conhecimento de nenhum pesquisador ou comentarista sugerir que os homens de Gibeá eram homossexuais. Ressalte-se que enquanto os Sodomitas simplesmente ameaçaram violá-los, os homens de Gibeá consumaram o fato, chegando a causar a morte da concubina. Ainda assim, Deus não mandou imediatamente uma chuva de enxofre e fogo sobre Gibeá como castigo pelo que os homens haviam dito. Se for usada a mesma linguagem, inclusive o mesmo verbo original no Hebraico (yadtha) em ambas as histórias, por que somente os habitantes de Sodoma são considerados homossexuais? Por que estes acabaram por estuprar a concubina, o que não se pode considerar como um comportamento homossexual, que neste caso provavelmente não iriam querer ir além de “trocar receitas” com a concubina? Talvez porque a história de Gibeá apresenta um detalhe adicional que não encontramos na história de Sodoma. O homem, quando perguntado mais tarde pelos israelitas sobre o que havia acontecido, responde (versículo 20:5): "E os cidadãos de Gibeá se levantaram contra mim, e cercaram a casa de noite, e intentaram matar-me, e violentaram a minha concubina, de maneira que morreu." Ele não parecia muito preocupado com sua própria ameaça de estupro (?), do que com a intenção de matá-lo. Apesar de que Deus não fez chover enxofre e fogo do céu sobre Gibeá, ao final do capítulo 20 lemos que todos foram mortos a fio de espada e a cidade incendiada.
Existe qualquer outra relevante referência bíblica referente à razão que levou Deus a destruir Sodoma e Gomorra? Sim. O grande profeta Ezequiel foi chamado por Deus para castigar Jerusalém, que havia sido uma cidade cananita e tornara-se judaica. Deus zelava por essa cidade e ela tornou-se próspera, mas então o poder subiu-lhe à cabeça. Voltou-se para a idolatria, sacrifícios de crianças, e estabeleceu más alianças com outras nações. Então Ezequiel foi chamado a repreendê-la e a comparou com “a sua irmã” Sodoma, “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca estendeu a mão ao pobre e ao necessitado. Também elas se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; pelo que, ao ver isso, as tirei do seu lugar” (Ezequiel 16,49-50).
Agora temos pela palavra do grande profeta Ezequiel as razões pelas quais Deus destruiu Sodoma e Gomorra. Nenhuma menção à homossexualidade, nenhuma vaga menção sequer. Os sodomitas eram soberbos, glutões (gordos? Oh Deus, ajuda), egoístas. Não ajudavam aos mais necessitados, julgavam-se melhores que os outros e cometiam abominações. Que ou quais seriam tais abominações?
Na Concordância Bíblica de Strong encontramos que a palavra hebraica usada é towebah, ou toebah, e define abominação da seguinte maneira: algo repulsivo, odioso, que causa fastio, ou seja, uma repugnância, aversão; especialmente idolatria ou concretamente um ídolo. Então Strong nos diz que o uso da palavra (toebah) está relacionado a descrever a abominação da idolatria. Lembre-se que o primeiro Mandamento diz: ”Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 10,2-3).
Na concepção dos hebreus, esse mandamento é o primeiro e mais notável. Qualquer coisa menor que a absoluta devoção a Yaveh é considerada a pior atitude de uma pessoa; sendo ainda considerada detestável, abominável.
Examinaremos as práticas idólatras quando chegarmos ao Levíticos.
Só há uma passagem na Bíblia que faz ligação entre atividade sexual com Sodoma e Gomorra e sua destruição; no livro de Judas. Estudaremos esta passagem no próximo estudo: Judas

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