segunda-feira, 16 de maio de 2011

V - HOMOSSEXUALIDADE E A BÍBLIA - DEUTERONÔMIO - PARTE I

DEUTERONÔMIO 23.17 (JFA)

“Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel”.
Deuteronômio 23,17 (Versão Bíblia Eletrônica):
“Não haverá dentre as filhas de Israel quem se prostitua no serviço do templo, nem dentre os filhos de Israel haverá quem o faça”.
Em nosso estudo sobre o livro do Levítico aprendemos que a religião do povo agrícola de Canaã gravitava em torno da fertilidade da terra e das pessoas, e que a expressão desta religiosidade traduzia-se na ida aos templos dos (as) deuses (as) e manter relações sexuais (muitas vezes relações entre pessoas do mesmo sexo) com os sacerdotes ou sacerdotisas do templo. Onde está a evidência dessa atividade? Se isto é verdade porque essa informação não é mostrada nas Escrituras? Parece que a Bíblia associa estas passagens à atividade homossexual e não à idolatria. Por que será?
Nas passagens acima, perceba que a versão JFA traduz Deuteronômio 23,17 proibindo a prostituição por parte das filhas de Israel, ou a sodomia por parte dos filhos de Israel. A tradução JFA deriva da versão King James, tradução feita nos anos 1600. Uma versão mais recente, por exemplo a da Bíblia Eletrônica que usamos, derivada da versão (NIV), a qual foi produzida no século XX e traduz o mesmo versículo proibindo a prostituição no serviço do templo. O que poderia ter causado a mudança do significado da palavra? Desde quando um sodomita (que muitas igrejas insistem em identificar como homossexual) tornou-se um prostituto ou prostituta do templo?
Devemos atentar para o fato de que apesar de serem mencionados na Bíblia, ela não relata a história dos cananeus, mas sim a história do povo hebreu e de sua relação com Deus. Em parte algumas da Bíblia podem encontrar relatos a respeito de como viviam os cananeus nem de suas práticas. Até o século XX, o conhecimento da cultura dos cananeus estava limitado a três principais fontes:
1. Artefatos produzidos por pesquisas arqueológicas.
2. Literatura de povos que viveram na mesma época, mas pouquíssima informação está disponível, a partir desta fonte, sobre os costumes dos Cananeus.
3. Escrituras Hebraicas.
Entretanto nenhum dessas fontes pôde disponibilizar informações sobre a filosofia, práticas e crenças dos cananeus.
Em 1928 um camponês sírio estava arando a sua terra quando a seu arado partiu um pedaço de terra que resultou na descoberta de um buraco enorme. Este buraco, mais tarde revelou-se como sendo a cidade cananéia de Ugarit, que havia sido soterrada. Nesta cidade havia uma biblioteca onde conseguimos encontrar informações sobre as práticas religiosas dos cananeus que conhecemos hoje. E não somente na biblioteca, mas nos lares também encontramos muitas informações sobre a religião cananéia. Só em uma casa encontramos mais de 80 textos sobre práticas religiosas cananéias.
Qualquer estudioso da Bíblia, mesmo aqueles com um interesse limitado já ouviram falar dos “manuscritos do Mar Morto”, mas em comparação pouquíssimos ouviram falar das descobertas de Ugarit. Entretanto se você entrar na Internet e fizer uma pesquisa com base na palavra “Ugarit”, você descobrirá que existem mais de 8500 sites e artigos disponíveis. Os textos encontrados em Ugarit foram escritos em seis línguas. Apenas uma parte relativamente pequena da quantidade enorme de material encontrada foi traduzida até o presente, mas o material traduzido tem causado um grande impacto no conhecimento da Bíblia, refletindo-se em mudanças significativas nas traduções mais recentes. Muitas passagens obscuras e confusas têm sido corrigidas, em alguns casos, e em outros tem sido clarificadas.
Na época em que a versão King James (da qual deriva a JFA) foi escrita, ninguém havia ainda ouvido sobre prostituição nos templos. Por outro lado a versão NIV, escrita após a descoberta de Ugarit, mostra no versículo acima apenas uma das mudanças ocasionadas pela descoberta de Ugarit.
O Almanaque da Bíblia, edição 1980 declara:
“Nas Religiões em que a fertilidade representa um importante papel, como aquelas encontradas em Ugarit, uma grande ênfase é dada à reprodução da terra, às colheitas, e ao principal órgão reprodutor feminino, o útero. Esta ênfase explica a importância dos intercursos sexuais. A Bíblia e os textos cananeus encontrados em Ugarit usam as palavras qadesh e qedesha, que significam "o sagrado", sendo a primeira masculina, e a segunda, feminina. Em Ugarit, estes “sagrados” eram sacerdotes e sacerdotisas homossexuais que agiam como prostitutos (as). Percebemos uma forte reação dos hebreus contra esta prostituição ritualística nas passagens do Levítico 19,29: "Não contaminarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se...” e em Deuteronômio 23,17: "Não haverá prostituta (qedesha) dentre as filhas de Israel, nem haverá sodomita (qadesh) dentre os filhos de Israel" (pp 146).
Temos visto aqui a tradução moderna de Deuteronômio 23,18, a condenação não é a condenação da homossexualidade (“sodomia”) mas a condenação da prostituição ritualística. Agora, quando lembramos as palavras com as quais começa o capítulo 18 de Levítico: “…nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos os seus estatutos”, e as comparamos com a explicação acima, começa a ficar mais claro que, não apenas em Deuteronômio 23,18, mas também em Levítico 18,22 e 20,13 são veementes condenações à idolatria e não à homossexualidade. Na verdade veremos que este assunto de prostituição no templo, com fins ritualísticos, aparecerá novamente, quando estudarmos as passagens que são mais conhecidas e usadas e que supostamente condenam a homossexualidade nas Escrituras.
Esta é a resposta para a questão: Onde está a evidência desta atividade? Agora, vamos responder a segunda questão: Se isto é verdade por que esta informação não é mostrada nas escrituras?. Como vimos, quando comparamos algumas versões mais antigas com as mais modernas encontramos as evidências.
Entretanto salientamos que algumas versões modernas ainda usam o termo homossexual ao invés de “prostitutas (os) do templo”. A fim de saber o que realmente os escritores originais pretendiam dizer, é extremamente importante que se use uma boa concordância bíblica e um dicionário bíblico, de maneira que se possa verificar o significado das palavras na língua original em que foram escritas. Não é necessário conhecer a língua original para se proceder a tal pesquisa, apesar de que isto significa que será necessário, na maioria das vezes, ler mais de uma versão a fim de descobrir qual a palavra originalmente usada.
Por que parece que esta passagem, da maneira que são mostradas na Bíblia, tem mais a ver com a homossexualidade do que com a idolatria? Como já vimos várias interpretações das passagens, alem de traduções de qualidade duvidosa, nos levam a crer que essas passagens tratam de homossexualidade. Devemos lembrar que as Escrituras devem ser lidas dentro de seu contexto, e contexto não se refere apenas a manter as passagens em ordem cronológica nas Escrituras, mas devem ser examinadas levando-se em consideração a época, a cultura e o povo ao qual elas se dirigiam. Muitas vezes é necessário buscar fontes fora da Bíblia, e estar imbuídos de boa-vontade para pesquisar de maneiras a conhecer e entender o verdadeiro significado das passagens. Este é o propósito dos Estudos Bíblicos.
Se os textos encontrados em Ugarit nos mostram que as passagens referidas representam uma condenação à prostituição ritualística ao invés de condenação à homossexualidade, por que tantas igrejas ainda mantêm suas antigas visões condenatórias? Tradição é a homenagem que prestamos aos mortos! É muito difícil convencer algumas pessoas a deixar suas idéias pré-concebidas, seus pontos-de-vista e crenças que foram consolidados com o tempo. Além do mais, foram utilizados anos de pesquisa e estudos, uma vez que algumas interpretações e conclusões atingiram um certo nível de aceitação do que é, na visão deles, a verdade, a simples idéia de uma interpretação diferente pode ser encarado como um desafio à fé que possuem. Ao invés de serem capazes de adotar uma posição de compreensão e receptividade a um ponto-de-vista diferente; costumeiramente eles sentem-se ameaçados em sua fé, e não raro reagem com ira e fecham-se completamente às possibilidades de uma visão a partir de um ângulo diferente (Veja Círculo Hermenêutico, na Apostila nº 1, de nosso estudo Bíblia e Homossexualidade.) Uma nova idéia ou interpretação pode provocar dúvidas sobre o que eles já aceitaram e muitos crêem que duvidar pode ser contrário à fé.
Ainda assim consideramos que fé sem questionamentos não é fé. A fé cresce e consolida-se através do questionamento, quando estamos dispostos a desafiar nossos questionamentos, pesquisar e crer na orientação do Espírito Santo que nos "guiará em toda a verdade." (Jo 16,13). Lembre-se que quando Tomé expressou suas dúvidas sobre a Ressurreição de Cristo, Jesus não o ridicularizou nem o condenou por suas dúvidas. Jesus abriu suas mãos e convidou a tocar nas suas feridas (cf Jo 20,29). Jesus ofereceu a prova que Tomé necessitava. Pesquisadores e estudantes da Bíblia, que querem fazê-lo seriamente, não devem temer a confrontação de seus paradigmas espirituais. Creia que o Espírito Santo esta aí para ajudá-lo. Sua fé aumentará!
Deuteronômio 23,18:
“Não trarás o salário da prostituta nem o aluguel do sodomita para a casa do Senhor teu Deus, por qualquer voto, porque uma e outra coisa são igualmente abomináveis ao Senhor teu Deus”.
NOTA: algumas versões utilizam a palavra cão, ao invés de sodomita.
O vocábulo traduzido como sodomita ou cão, de acordo com algumas versões, na linguagem original, era keleb, o qual significa latir, ganir ou uivar ou ainda atacar; ou cão; e conseqüentemente (,por eufemismo,) um praticante da prostituição masculina (Strongs #3611). A questão, entretanto é: de que tipos de prostituição estão falando? Os pesquisadores apresentam opiniões diferentes. Na série ”Estudos Bíblicos Diários” o autor do estudo do livro de Deuteronômio, David F Payne, escreve somente isto a respeito desta passagem:
“Versículos 17-18: debruça-se sobre a prática de ritos religiosos, e proíbe a prática de prostituição em nome de Javeh (a palavra traduzida como cão, conseqüentemente significa praticantes de prostituição ritualística, muito comum na religião canaanita)”.
Por outro lado, A Nova Bíblia Anotada Oxford, escreve sobre os versículos 17-18:
"Estes versículos pressupõem a inevitabilidade da prostituição, enquanto proíbem esta prática aos israelitas de maneira a preservar a santidade do templo e do povo (versículo 17). Prostituição no serviço do templo (hebraico: "qedesha"), esta tradução admite crer na existência de uma prostituição considerada “sagrada” em Israel e na região do antigo Oriente Próximo, para a qual existe pouca evidência. È mais provável que o vocábulo "qedesha" seja um eufemismo padrão para o termo prostituta/o, considerado grosseiro (versículo 18). A mesma alternação entre os mesmos termos aparece em Gn 38,15 e 21. A palavra deve ser mais bem traduzida como “separado”, algum posto ao largo, separado da sociedade (versículo 18). A fim de manter a santidade, a lei proíbe a contribuição ao Templo, com o produto da prostituição.
É interessante notar ainda que apesar de que Oxford aparentemente não leva em consideração as informações produzidas a partir dos textos de Ugarit, e pressupõe que ambos os versículos referem-se tão somente à prostituição normal é como conhecida, (ou seja aqueles não ligados à prostituição ritualística, ou a serviço do templo); ainda assim em sua própria tradução dos versículos, usa a sentença prostituição à serviço do templo. Encontramos o mesmo paralelo de palavras (prostituto/a e prostituto/a a serviço do templo) em Gn 38,15 e 21. É ainda mais interessante notar que no comentário acima a palavra "qedesha" pode ser mais bem traduzida como “separado, alguém que vive ao largo” o que comumente significa alguém separado para o serviço de Deus, para servir a Deus. Vale salientar que as duas escolas de pensamento têm interpretações diferentes do significado destes versículos, e nenhuma delas chegou a nenhuma conclusão se o mesmo estaria relacionado à homossexualidade.
O objetivo da apresentação dessas duas linhas de pensamento conflitantes não foi absolutamente de confundi-los, mas tão somente de demonstrar que até os maiores estudiosos da Bíblia, professores, e instituições de ensino nem sempre concordam entre si à respeito do exato significado das Escrituras, e atente para o fato de como o Círculo Hermenêutico pode influenciar neste processo.
Minha interpretação pessoal dessas passagens resume-se assim: israelitas não devem envolver-se em prostituição do templo, porque essas são práticas idólatras (conseqüentemente abominação).

Próximo estudo: Deuteronômio 22:5

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